segunda-feira, janeiro 16, 2012

...

O pouco que eu penso passou para aqui http://quiosqueliberdade.blogspot.com/

De resto...



sexta-feira, junho 03, 2011

Ler os Outros - XII

Seja um Idiota, por Arnaldo Jabor

A idiotice é vital para a felicidade.
Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz!
A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado?
Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins. No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota!
Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele. Milhares de momentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto. Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça? hahahahahahahahaha!…
Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor idéia de como preencher as horas livres de um fim de semana? Quanto tempo faz que você não vai ao cinema? É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar? Desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. Você quer? Espero que não.
Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas… a realidade já é dura; piora se for densa. Dura, densa, e bem ruim. Brincar é legal. Entendeu? Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não chorar, não andar descalço, não tomar chuva. Pule corda! Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte. Ser adulto não é perder os prazeres da vida – e esse é o único “não” realmente aceitável. Teste a teoria. Uma semaninha, para começar. Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são: passageiras.
Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir… Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!
Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e que tal um cafezinho gostoso agora? “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios”.
“Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche”.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

On Egipt

"Those who make peaceful revolution impossible will make violent revolution inevitable." John F. Kennedy

e, por estranho que pareça, Chavez..

"Los que le cierran el camino a la revolución pacífica, le abren al mismo tiempo el camino a la revolución violenta"

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Ler os Outros - XI

“COISAS QUE NUNCA DEVERÃO MUDAR EM PORTUGAL”
Alexander Ellis (Embaixador Britânico em Portugal)


“ Portugueses: a vossa atitude sobre o vosso próprio país é magistralmente descrita por Eça de Queirós no jantar do Cohen em “Os Maias”. O volume e o tom de autoflagelação aumenta ao longo dos vários pratos servidos (petit pois a la belle Cohen) até que o Ega, já com os copos grita: “Portugal o que precisa é de uma Invasão Espanhola” Para actualizar o sentimento só é preciso substituir Espanha por “FMI”.


Então, em contracorrente ao pessimismo dominante, decidi em vésperas da minha partida pela segunda vez deste pequeno jardim, anotar dez coisas que espero bem que nunca mudem em Portugal.


1. A ligação intergeracional. Portugal é um país onde os jovens e os velhos conversam – normalmente dentro do contexto familiar. O estatuto de avô é altíssimo na sociedade portuguesa – e ainda bem. Os portugueses respeitam a primeira e a terceira idade, para o benefício de todos.
2. O lugar central da comida na vida diária. O almoço conta – não uma sandes comida com pressa e mal digerida, mas uma sopa, um prato quente etc., tudo comido á mesa e em companhia. Também aqui se reforça uma ligação com a família.
3. A variedade da paisagem. Não conheço outro país onde seja possível ver tanta coisa num dia só, desde a imponência do rio Douro até á beleza das planícies do Alentejo, passando pelos planaltos da Beira Interior.
4. A tolerância. Nunca vivi num país que aceita tão bem os estrangeiros. Não é por acaso que Portugal é considerado um dos países mais abertos aos emigrantes pelo estudo internacional MIPEX.
5. O café e os cafés. Os lugares são simples, acolhedores e agradáveis; a bebida é um pequeno prazer diário, especialmente quando acompanhado por um pastel de nata quente.
6. A inocência. É difícil descrever esta ideia em poucas palavras sem parecer paternalista; mas vi no meu primeiro fim-de-semana em Portugal, numa festa popular em Vila Real, adolescentes a dançar danças tradicionais com uma alegria e abertura que têm, na sua raiz, uma certa inocência.
7. Um profundo espírito de independência. Olhando para o mapa ibérico parece estranho que Portugal continue a ser um país independente. Mas é e não é por acaso. No fundo de cada português, há um espírito profundamente autónomo e independentista.
8. As mulheres. O adido de Defesa na Embaixada há 15 anos deu-me um conselho precioso: “Jovem, se quiser uma coisa mesmo bem feita neste país, dê a tarefa a uma mulher”. Concordei tanto que me casei com uma portuguesa.
9. A curiosidade sobre, e o conhecimento, do mundo. A influência de “lá” é evidente cá, na comida, nas artes, nos nomes. Portugal é um país ligado e que quer continuar ligado, aos continentes do mundo.
10. Que o dinheiro não é a coisa mais importante do mundo. As coisas boas de Portugal não são caras. Antes pelo contrário: não há nada melhor do que sair da praia ao fim da tarde e comer um peixe grelhado, acompanhado por um simples copo de vinho.


Então, seguindo o exemplo dos convidados do Cohen, terminaremos a contemplação do país não com miséria, mas com brindes e abraços.


Feliz Natal.”

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Ler os Outros - X

«A Wikileaks é uma organização política, com escreveu Pacheco Pereira, e não jornalística, mas trabalha na comunicação social e tem relações especiais com cinco dos melhores jornais do mundo. A sua política é esta: mudar o mundo pela comunicação e não pela revolução. Além de segredos militares e diplomáticos dos EUA — principal alvo das “wiki-fugas” de informação —, a organização já tornou públicos documentos sobre membros de um partido racista britânico, a descarga de lixo tóxico na costa africana e corrupção empresarial, entre outros pacotes de informação. Na Islândia, a Wikileaks foi consultora do parlamento na criação de legislação que transforma o país num paraíso da liberdade de imprensa. A legislação foi aprovada por unanimidade parlamentar em Junho. Na origem da decisão extraordinária da Islândia esteve a sua crise financeira, que se deveu em parte ao secretismo em negócios de bancos. Os telegramas diplomáticos ultimamente anunciados pela Wikileaks serão, muitos deles, irrelevantes enquanto material jornalístico ou de interesse público, como aquele em que um diplomata dos EUA “explica” que Putin e Medvedev são como Batman e Robin; o “fait divers” apenas sugere que o diplomata estaria mais bem colocado na Disneyland, a fazer de Pateta. Mas alguns telegramas são de interesse público, sobre inúmeros países e regimes, como o que respeitante ao envolvimento de dirigentes no narcotráfico ou sobre o pedido de autorização para voos da CIA em território português. Nem todos os telegramas causam danos. Pelo contrário. Em Portugal, o ministro Amado pôde credibilizar a inocência do governo no caso dos voos da CIA; uma fonte do Kremlin não viu nada de mal na informação saída da Rússia. No PÚBLICO, Teresa de Sousa escreveu que os telegramas revelam que o governo dos EUA “prossegue o seu objectivo legítimo de manter a liderança americana de uma forma equilibrada, pensando no interesse americano numa perspectiva global”. Haverá maior elogio à superpotência? Enquanto organização agregadora de informação e não-jornalística, não cabe à Wikileaks seleccionar o material obtido. Se o fizesse, cairia no mesmo erro de secretismo e falta de transparência que condena nos poderes políticos e militares. Por demissão, desinteresse ou acomodação, o jornalismo tem desleixado o tipo de investigação que a Wikileaks faz. Cabe agora aos jornalistas o papel secundário de extrair dos documentos material de interesse jornalístico. Os serviços secretos ocidentais não descobriram razões políticas para que os alvos principais da Wikileaks tenham sido, até agora, os EUA e o velho Ocidente, mas a história ensina que a hipótese é valida. Alguns ex-colaboradores do site mencionaram essa obsessão. Mas, se as “wiki-fugas” prejudicam os sistemas de poder democráticos, o que, por tabela, favorece os mais fechados ou ditatoriais, não se pode condenar a revelação de documentos relevantes na esfera pública pelo facto de não haver segredos russos ou chineses na Internet. Os recentes ataques à Wikileaks por parte do sistema político-militar-financeiro americano, incluindo ameaças de assassínio, são do mais brutal contra a liberdade de expressão que ocorrem desde a 2ª Guerra Mundial no mundo democrático e constituem mais um alerta sobre o que esperar contra a liberdade nos países livres. Acresce que os EUA, como afirmou o ministro australiano dos Negócios Estrangeiros, são responsáveis pelas suas fugas de informação. Os seus sistemas de segurança revelaram-se demasiado frágeis e talvez mesmo criminosamente displicentes, se se confirmar que todos os documentos estavam reunidos no mesmo local e acessíveis para cópia por um soldado. O jornalismo deve reconhecer-se na missão da Wikileaks de investigar e dar a conhecer erros e até crimes dos poderes. Por causa dessa tarefa, por vezes corajosa e generosa, morrem por ano dezenas de jornalistas em todo o mundo. Como é possível jornalistas e comentadores portugueses atacarem a divulgação de documentos de interesse público? Até arrepia ler e ouvir alguns deles, super liberais ou de “esquerda” (porém “moderada”), condenando a divulgação de documentos pela Wikileaks e assumindo a mesma posição do poder político e militar americano.»
Eduardo Cintra Torres, Público

domingo, dezembro 05, 2010

terça-feira, setembro 28, 2010

E porque este livro é absurdo, eu o amo; porque é inútil, eu o quero dar; e porque de nada serve querer to dar, eu to dou...

quinta-feira, agosto 12, 2010

Ler os Outros - VIII

"Tango
Isto também é o tempo a passar, as coisas a mudarem sem darmos por isso: descubro, com o patrocínio das redes sociais, que um ex-colega de curso é agora bailarino de tango, imagino que profissional, na Holanda, como num daqueles filmes com o Richard Gere em que as personagens decidem mudar de vida e mudam mesmo, não é como na chamada vida real, onde as pessoas decidem mudar de vida mas não mudam nada. Não sei se ele decidiu, não sei se foi apenas uma coisa que lhe aconteceu, mas estar a dançar o tango na Holanda como modo de vida é uma coisa que impressiona, até os duros de coração têm de reconhecer. Um dia vou chegar à meia-idade e vai acontecer-me aquela crise onde olhamos para trás e pensamos o que teria sido de nós se tivéssemos decidido largar o escritório e ir dançar o tango para a Holanda, não que no meu caso a fantasia seja dançar o tango, não gosto de dançar, seria outra coisa que agora não me ocorre mas que me ocorrerá quando chegar aos 50, e fico com a sensação que aquele meu ex-colega de curso não vai ter uma crise de meia-idade, ou se a tiver será uma crise ao contrário, olhará para trás e pensará o que teria sido da vida dele se tivesse largado o tango e ido para um escritório, trabalhar das 9 às 19, à frente de um computador, será uma crise de meia-idade sem graça nenhuma, agora que penso nisso."

domingo, maio 30, 2010

No Rádio - XV e XVI

Snow Patrol - Chasing Cars & Run



sábado, março 06, 2010

Ler os Outros - VII

"Obrigados, namoradas

Penso em tudo o que os homens sentem pelas mulheres que amam e tento dizer o que nos une nesse amor, fora dos pormenores e das particularidades.

Sei que as mulheres que nos amam não nos amam de maneira diferente, mas, como nunca se sabe, deixei-as de fora, falando apenas pelo meu género: a malta.

Minha amada querida. O meu pai, logo depois de se ter apaixonado pela minha mãe, disse-lhe, em pleno namoro (ela uma mulher inglesa casada, com uma filha pequena; ele um solteirão português): "Se soubesses quanto eu te amava; destruías-me já." E disse a verdade. Era tanto o amor e o ciúme que lhe tinha, que fez mal à mulher que amava, minha mãe, e mal ao homem que a amava; ele próprio; meu pai.

O amor é um castigo; é um desespero; é um medo. O amor vai contra todos os nossos instintos de sobrevivência. Instiga-nos a cometer loucuras. Instiga-nos a comprometermo-nos. Obriga-nos a cumprir promessas que não somos capazes de cumprir. Mas cumprimos.

Eu amo-te. E não me custa. É um acto de egoísmo. Mesmo que tu me odiasses mas te odiasses tanto a ti própria que não te importasses de ficar comigo, eu seria feliz e agradeceria a Deus a tua inconsciência; a tua generosidade; qualquer estupidez ou inteligência que te mantivesse perto de mim.

A sorte não é amar-te nem tu me amares. A sorte é ter-te ao pé de mim. Tu podes estar enganada. Deves estar enganada. Mas ninguém neste mundo, por pouco que me ame ou muito que te ame, está mais certa para mim.

Obrigado."

domingo, janeiro 31, 2010

No Rádio - XIV

Ornatos Violeta - Ouvi Dizer

Ouvi dizer que o nosso amor acabou.
Pois eu não tive a noção do seu fim!
Pelo que eu já tentei,
Eu não vou vê-lo em mim:
Se eu não tive a noção de ver nascer um homem.
E ao que eu vejo,
Tudo foi para ti
Uma estúpida canção que só eu ouvi!
E eu fiquei com tanto para dar!
E agora
Não vais achar nada bem
Que eu pague a conta em raiva!
E pudesse eu pagar de outra forma!
Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã,
E eu tinha tantos planos para depois!
Fui eu quem virou as páginas
Na pressa de chegar até nós;
Sem tirar das palavras seu cruel sentido!
Sobre a razão estar cega:
Resta-me apenas uma razão,
Um dia vais ser tu
E um homem como tu;
Como eu não fui;
Um dia vou-te ouvir dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!
Sei que um dia vais dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!
A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga! ora doce!
Para nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura!

quarta-feira, janeiro 27, 2010

No Rádio - XIII

John Mayer - Who Says | New Album 'Battle Studies' |

Who says I can’t get stoned?
Turn off the lights and the telephone
Me and my house alone
Who says I can’t get stoned?

Who says I can’t be free?
From all of the things that I used to be
Re-write my history
Who says I can’t be free?

It’s been a long night in New York City
It’s been a long night in Baton Rouge
I don’t remember you looking any better
But then again I don’t remember you

Who says I can’t get stoned?
Call up a girl that I used to know
Fake love for an hour or so
Who says I can’t get stoned?

Who says I can’t take time?
Meet all the girls on the county line
Then wait on fate to send a sign
Who says I can’t take time?

It’s been a long night in New York City
It’s been a long night in Austin too
I don’t remember you looking any better
But then again I don’t remember you

Who says I can’t get stoned?
Plan a trip to Japan alone
Doesn’t matter if I even go
Who says I can’t get stoned?

It’s been a long night in New York City
It’s been a long time since 20 too
I don’t remember you looking any better
But then again I don’t remember you

sábado, janeiro 09, 2010

Na Rádio - XII




When the rain
Is blowing in your face
And the whole world
Is on your case
I could offer you
A warm embrace
To make you feel my love

When the evening shadows
And the stars appear
And there is no one there
To dry your tears
I could hold you
For a million years
To make you feel my love

I know you
Haven't made
Your mind up yet
But I would never
Do you wrong
I've known it
From the moment
That we met
No doubt in my mind
Where you belong

I'd go hungry
I'd go black and blue
I'd go crawling
Down the avenue
No, there's nothing
That I wouldn't do
To make you feel my love

The storms are raging
On the rolling sea
And on the highway of regret
Though winds of change
Are throwing wild and free
You ain't seen nothing
Like me yet

I could make you happy
Make your dreams come true
Nothing that I wouldn't do
Go to the ends
Of the Earth for you
To make you feel my love

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Yehuda Amichai - O lugar em que temos razão

O lugar em que temos razão

Do lugar em que temos razão
jamais crescerão
flores na primavera.

O lugar em que temos razão
está pisoteado e duro
como um pátio.

Mas dúvidas e amores
escavam o mundo
como uma toupeira, como a lavradura.
E um sussurro será ouvido no lugar
onde houve uma casa
que foi destruída.

Yehuda Amichai, revista "Poesia Sempre", nº 8, Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 1997


FONTE

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Nuno Moura - Dor que não Passa

Desço à rua com os olhos na boca
e a saliva nas mãos
para te carregar, já aqui.

Carrego-te em vergões, às costas,
em equilíbrio numa malha
do teu vestido.

Vens-me daí, de onde me sabes,
como te cheiro, num palco de rua,
numa cheia decidida.

És impossível, de interromper,
de cessar, antes eu,
já aqui, até que os meus olhos hão-de quebrar
e aí o costume de só deixares a capa
a embalar as tábuas.

Sei também que és por mim, que serei a erguer-te
no momento antes da tua morte, no último prego
mesmo com a mão, num canto,
já aqui.

Apeteces-me tanto.

Sabes, é bom ver-te, mas olha, é melhor ter-te,
mesmo quando mandas chover e dás tempo de morrer à hora.
Mesmo quando grito para não voltar a ouvir a tua subida silenciosa.

Apeteces-me daí.

Sabes, sabes bem, um apetece de vai-vem,
o melhor da terra virada,
um rasto, uma teima para o mar toda voltada.

Apeteces-me já aqui.

Espero que me desças.

de Soluções do problema anterior, &etc.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Ler os outros - V

Um fabuloso texto sobre o meu treinador de há muitos anos e sobre o Benfica. Fantástico. A versão completa encontra-se na Tertúlia Benfiquista.


"(...) O Glorioso recebe o Vitória de Setúbal na Luz. Joga que se farta, marca o primeiro e carrega. Marca o segundo e carrega. O Benfica marca o terceiro, o quarto, o quinto e carrega. Os jogadores têm fome de bola, pedem-na aos colegas, jogam para a frente, com garra e confiança. Cheiram sangue e correm atrás da presa. Querem mais. O Aimar dança elegantemente dentro de campo. A equipa dá espectáculo enquanto estraçalha o adversário. Olho à minha volta e os sorrisos que vejo estampados nas caras dos adeptos mostram que o Benfica voltou a casa.

Chega o intervalo e Jorge Jesus pede aos jogadores para jogarem como se estivesse 0-0. Quer mais golos, quer a mesma agressividade, irreverência, espectáculo. Não chega – nunca chega. Não é suficiente estar assegurada a vitória, não fará sentido gerir o jogo, não será melhor evitar esforços? Não, não e não! Jesus quer, como nós, mais. Aguce-se o killer instinct, afine-se a máquina, sirva-se espectáculo a quem o veio ver.

Os jogadores fazem-lhe(-nos) a vontade e continuam a jogar como se não houvesse amanhã. Sem medo, sem amarras, sem perdão. O Benfica marca o sexto, o sétimo, o oitavo e carrega. Os ataques sucedem-se. Falha-se mais meia dúzia de golos. O Ramires corre como um louco, o Saviola parece que tem 14 anos, o Di Maria está possuído, o Fábio Coentrão também. O estádio festeja, as bancadas pairam entre cada jogada. A chama arde. Aproximam-se os 90 minutos e Jorge Jesus vocifera, esbraceja, exige que os jogadores vão a todas as bolas como se fossem a primeira. Quer o nono golo. Ah, que se lixe, quer o décimo. Também nós.

Chega o fim do jogo e irrito-me profundamente (perguntem ao D’Arcy e ao Pedro F. Ferreira) com o assomo de laxismo que resulta no golo sofrido. Descubro, um pouco mais tarde, que o Jorge Jesus ficou tão irritado quanto eu. E percebo que temos o treinador que sempre quis.

A vitória, enquanto mero exercício matemático de adição de pontos numa competição, vale o que vale. São três pontos, como o seriam numa vitória por 1-0. Ah, mas o diálogo que teve lugar naquele relvado entre o Benfica e a sua alma vale mais – muito, muito mais.

Vale, acima de tudo, o reencontro do Benfica com a sua identidade. Com a sua matriz ideológica. E eu, vendo no relvado materializar-se tudo aquilo que defendi e escrevi, emocionei-me - claro que me emocionei.

Vamos ganhar jogos e jogar maravilhosamente, vamos ganhar jogos e jogar mal, vamos inevitavelmente empatar ou perder jogos. Mas esta atitude, esta fome, esta filosofia como motor molda a equipa, formata-a para ser temida e para ser temível, evita-lhe o retraimento, exercita-lhe o instinto assassino, afia-lhe as garras, afina-lhe os movimentos ofensivos, dá-lhe estofo e prepara-a para tudo o que aí vem.

Fernando Santos era benfiquista no papel, mas faltava-lhe a águia na alma. Arrisco-me a dizer que Jorge Jesus, não tendo sido benfiquista de facto (até agora), sempre teve a águia na alma, mas não o sabia. E, nessa medida, é o treinador mais profundamente benfiquista (no que isso significa em irreverência, destemor, determinação e ousadia) que temos desde há muito.

Caro Fernando Santos, ganham-se jogos por tantos golos quantos quisermos, se formos audazes e soubermos abraçar o destino. Eu sempre o soube. O Jorge Jesus também."