O lugar em que temos razão
Do lugar em que temos razão
jamais crescerão
flores na primavera.
O lugar em que temos razão
está pisoteado e duro
como um pátio.
Mas dúvidas e amores
escavam o mundo
como uma toupeira, como a lavradura.
E um sussurro será ouvido no lugar
onde houve uma casa
que foi destruída.
Yehuda Amichai, revista "Poesia Sempre", nº 8, Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 1997
FONTE
segunda-feira, dezembro 21, 2009
sexta-feira, dezembro 18, 2009
Nuno Moura - Dor que não Passa
Desço à rua com os olhos na boca
e a saliva nas mãos
para te carregar, já aqui.
Carrego-te em vergões, às costas,
em equilíbrio numa malha
do teu vestido.
Vens-me daí, de onde me sabes,
como te cheiro, num palco de rua,
numa cheia decidida.
És impossível, de interromper,
de cessar, antes eu,
já aqui, até que os meus olhos hão-de quebrar
e aí o costume de só deixares a capa
a embalar as tábuas.
Sei também que és por mim, que serei a erguer-te
no momento antes da tua morte, no último prego
mesmo com a mão, num canto,
já aqui.
Apeteces-me tanto.
Sabes, é bom ver-te, mas olha, é melhor ter-te,
mesmo quando mandas chover e dás tempo de morrer à hora.
Mesmo quando grito para não voltar a ouvir a tua subida silenciosa.
Apeteces-me daí.
Sabes, sabes bem, um apetece de vai-vem,
o melhor da terra virada,
um rasto, uma teima para o mar toda voltada.
Apeteces-me já aqui.
Espero que me desças.
de Soluções do problema anterior, &etc.
e a saliva nas mãos
para te carregar, já aqui.
Carrego-te em vergões, às costas,
em equilíbrio numa malha
do teu vestido.
Vens-me daí, de onde me sabes,
como te cheiro, num palco de rua,
numa cheia decidida.
És impossível, de interromper,
de cessar, antes eu,
já aqui, até que os meus olhos hão-de quebrar
e aí o costume de só deixares a capa
a embalar as tábuas.
Sei também que és por mim, que serei a erguer-te
no momento antes da tua morte, no último prego
mesmo com a mão, num canto,
já aqui.
Apeteces-me tanto.
Sabes, é bom ver-te, mas olha, é melhor ter-te,
mesmo quando mandas chover e dás tempo de morrer à hora.
Mesmo quando grito para não voltar a ouvir a tua subida silenciosa.
Apeteces-me daí.
Sabes, sabes bem, um apetece de vai-vem,
o melhor da terra virada,
um rasto, uma teima para o mar toda voltada.
Apeteces-me já aqui.
Espero que me desças.
de Soluções do problema anterior, &etc.
domingo, outubro 25, 2009
quarta-feira, setembro 02, 2009
Ler os outros - V
Um fabuloso texto sobre o meu treinador de há muitos anos e sobre o Benfica. Fantástico. A versão completa encontra-se na Tertúlia Benfiquista.
"(...) O Glorioso recebe o Vitória de Setúbal na Luz. Joga que se farta, marca o primeiro e carrega. Marca o segundo e carrega. O Benfica marca o terceiro, o quarto, o quinto e carrega. Os jogadores têm fome de bola, pedem-na aos colegas, jogam para a frente, com garra e confiança. Cheiram sangue e correm atrás da presa. Querem mais. O Aimar dança elegantemente dentro de campo. A equipa dá espectáculo enquanto estraçalha o adversário. Olho à minha volta e os sorrisos que vejo estampados nas caras dos adeptos mostram que o Benfica voltou a casa.
Chega o intervalo e Jorge Jesus pede aos jogadores para jogarem como se estivesse 0-0. Quer mais golos, quer a mesma agressividade, irreverência, espectáculo. Não chega – nunca chega. Não é suficiente estar assegurada a vitória, não fará sentido gerir o jogo, não será melhor evitar esforços? Não, não e não! Jesus quer, como nós, mais. Aguce-se o killer instinct, afine-se a máquina, sirva-se espectáculo a quem o veio ver.
Os jogadores fazem-lhe(-nos) a vontade e continuam a jogar como se não houvesse amanhã. Sem medo, sem amarras, sem perdão. O Benfica marca o sexto, o sétimo, o oitavo e carrega. Os ataques sucedem-se. Falha-se mais meia dúzia de golos. O Ramires corre como um louco, o Saviola parece que tem 14 anos, o Di Maria está possuído, o Fábio Coentrão também. O estádio festeja, as bancadas pairam entre cada jogada. A chama arde. Aproximam-se os 90 minutos e Jorge Jesus vocifera, esbraceja, exige que os jogadores vão a todas as bolas como se fossem a primeira. Quer o nono golo. Ah, que se lixe, quer o décimo. Também nós.
Chega o fim do jogo e irrito-me profundamente (perguntem ao D’Arcy e ao Pedro F. Ferreira) com o assomo de laxismo que resulta no golo sofrido. Descubro, um pouco mais tarde, que o Jorge Jesus ficou tão irritado quanto eu. E percebo que temos o treinador que sempre quis.
A vitória, enquanto mero exercício matemático de adição de pontos numa competição, vale o que vale. São três pontos, como o seriam numa vitória por 1-0. Ah, mas o diálogo que teve lugar naquele relvado entre o Benfica e a sua alma vale mais – muito, muito mais.
Vale, acima de tudo, o reencontro do Benfica com a sua identidade. Com a sua matriz ideológica. E eu, vendo no relvado materializar-se tudo aquilo que defendi e escrevi, emocionei-me - claro que me emocionei.
Vamos ganhar jogos e jogar maravilhosamente, vamos ganhar jogos e jogar mal, vamos inevitavelmente empatar ou perder jogos. Mas esta atitude, esta fome, esta filosofia como motor molda a equipa, formata-a para ser temida e para ser temível, evita-lhe o retraimento, exercita-lhe o instinto assassino, afia-lhe as garras, afina-lhe os movimentos ofensivos, dá-lhe estofo e prepara-a para tudo o que aí vem.
Fernando Santos era benfiquista no papel, mas faltava-lhe a águia na alma. Arrisco-me a dizer que Jorge Jesus, não tendo sido benfiquista de facto (até agora), sempre teve a águia na alma, mas não o sabia. E, nessa medida, é o treinador mais profundamente benfiquista (no que isso significa em irreverência, destemor, determinação e ousadia) que temos desde há muito.
Caro Fernando Santos, ganham-se jogos por tantos golos quantos quisermos, se formos audazes e soubermos abraçar o destino. Eu sempre o soube. O Jorge Jesus também."
sábado, julho 04, 2009
sexta-feira, junho 05, 2009
O fim (ou algo parecido)
Sejamos sérios. Este blogue não interessa ao menino Jesus (blasfémias!). Um dia vou criar uma coisa como deve ser que, pelo menos, tenha um nome decente. Depois, digo qualquer coisa. Este projecto está terminado.
EDIT: É possível que este blogue continue com as etiquetas Na Rádio, Ponto de Leitura e Poemas. Exclusivos meus não aparecerão.
EDIT: É possível que este blogue continue com as etiquetas Na Rádio, Ponto de Leitura e Poemas. Exclusivos meus não aparecerão.
domingo, abril 26, 2009
Californication - II
Hank: I know tonight... kind of got a little ruined.
Becca: It's okay. I'm used to it.
Hank: Yeah, well, I'll make it up to you, I swear.
Becca: I know.
Hank: Do you?
Becca: Sure. You never mean to let me down. But you do.
Hank: Yeah, I guess I do.
Becca: You know, it's all well and good to talk about happy endings. But if a person can't deliver, if he keeps screwing up, well, eventually, I guess you kind of just have to say, "fuck you," or words to that effect.
Californication S01E07 - Girls, Interrupted
Becca: It's okay. I'm used to it.
Hank: Yeah, well, I'll make it up to you, I swear.
Becca: I know.
Hank: Do you?
Becca: Sure. You never mean to let me down. But you do.
Hank: Yeah, I guess I do.
Becca: You know, it's all well and good to talk about happy endings. But if a person can't deliver, if he keeps screwing up, well, eventually, I guess you kind of just have to say, "fuck you," or words to that effect.
Californication S01E07 - Girls, Interrupted
Californication - I
Girl: that stuff will kill you.
Hank: Life will kill you. That's heavy. It will make sense.
(...)
Hank: You happy?
Karen: What?
Hank: It's a simple question. Are you happy?
Karen: I don't even know what that means anymore.
(...)
Hank: If I can make you laugh like that, why can't we be together? That's what I don't understand.
Karen: You know what? You don't want to be with me. You think --I know you think you do. But if I were to give myself to you, you would run for the hills, 'cause you're notin love with me, Hank. You're in love with the idea --the idea of love. Now, on that brave, profound note, I'm gonna go and get some coffee.
Hank: How you can be so fucking beautiful and so fucking wrong?
Californication S01E106 - Absinthe Makes The Heart Grow Fonder
Hank: Life will kill you. That's heavy. It will make sense.
(...)
Hank: You happy?
Karen: What?
Hank: It's a simple question. Are you happy?
Karen: I don't even know what that means anymore.
(...)
Hank: If I can make you laugh like that, why can't we be together? That's what I don't understand.
Karen: You know what? You don't want to be with me. You think --I know you think you do. But if I were to give myself to you, you would run for the hills, 'cause you're notin love with me, Hank. You're in love with the idea --the idea of love. Now, on that brave, profound note, I'm gonna go and get some coffee.
Hank: How you can be so fucking beautiful and so fucking wrong?
Californication S01E106 - Absinthe Makes The Heart Grow Fonder
sábado, abril 25, 2009
25 de Abril
"Uma geração que sequestre e aprisione o futuro das gerações seguintes nega e renega a liberdade. Não é digna nem está à altura da liberdade que as mulheres e os homens de Abril quiseram fundar."
"Não se cumprirá o 25 de Abril, não haverá nunca liberdade, se uma geração, no gozo máximo dos seus pretensos direitos, inviabilizar a liberdade de decidir das gerações futura."
Paulo Rangel, na AR
"Não se cumprirá o 25 de Abril, não haverá nunca liberdade, se uma geração, no gozo máximo dos seus pretensos direitos, inviabilizar a liberdade de decidir das gerações futura."
Paulo Rangel, na AR
segunda-feira, março 09, 2009
No Rádio - X
Rádio, leitor de MP3's, etc... Os Pontos Negros - Magnífico Material Inútil... os singles, o EP, o CD.. enfim... fortíssimo.
quarta-feira, novembro 19, 2008
quarta-feira, novembro 12, 2008
No Rádio - VI
Manuel Cruz - Borboleta
e eu largar eu sinto a sua falta
se eu agarro ela perde a côr
ela não é dos meus dedos
é dos meus medos
e faço-me passar por uma flor
tento imaginar o que ela diz
à espera de aprender
à face da rua existe a rua
mas não é tua à margem da estrada não há nada
mas já te agrada
tu és o teu mundo
tu és o teu fundo
tu és o teu poço
és o teu pior almoço
és a pulga na balança
és a mãe dessa criança
és o mal
és o bem
és o dia que não vem
agora pára de fazer sentido
não vês que assim estás a pisar fora da estrada
vê se agora páras de fazer sentido
não vês que nada nos dirá mais do que nos diz NADA
vê que o meu coração ainda salta
quer e julga ser capaz
não o faça por meus medos
faça nos dedos
e eu fico para ver o que ele faz
sem imaginar o que eu não fiz
à espera de viver
à face da chama existe a fama
mas não te ama à margem do nada não há estrada
já não te agrada
tu és o teu preço
és a tua glória
tu és o teu medo
és a parte má da história
vê que o sol ainda brilha
ainda tem por onde arder
não é mau
não é bom
são razões para viver
agora pára de fazer sentido
não vês que assim estás a pisar fora da estrada
vê se agora páras de fazer sentido
não vês que nada nos dirá mais do que nos diz NADA
se eu largar
eu vou sentir a sua falta
tu és tu sempre que tu és
és mesmo tu quando pensas que és outra coisa
e tu pensas que não mas tu és mesmo bom a ser sempre quem és
daí o teu motivo ser inapagável
daí o teu desejo ser incontornável
o prazer é tão maleável
daí o seu valor ser inestimável
a razão de existir um poeta é
terça-feira, julho 22, 2008
João Vieira Pinto
Terminou a carreira um dos jogadores portugueses mais brilhantes de sempre. Obrigado por tudo menino de ouro.
quarta-feira, junho 11, 2008
Ler os outros - IV
Um golo português
or Miguel Poiares Maduro
or Miguel Poiares Maduro
"São 39 os jogadores que neste Europeu representam países em que não nasceram. Em vários desses casos a imigração deu-se com o futebol e há muita gente, incluindo, em Portugal que contesta a identidade destas selecções. Nada mais errado. Não só este é um fenómeno natural como promove, no geral, uma identidade mais saudável. Depois de marcar o seu golo Pepe afirmou que sempre tinha querido representar Portugal e que esta era apenas mais uma forma de agradecer a forma como tinha sido recebido pelos portugueses. Haverá identidade mais genuína e saudável que aquela que é desejada? É estranho para mim que algumas pessoas não coloquem em causa a identidade portuguesa de jogadores provenientes de países que colonizávamos (vejam a selecção de 66) mas questionem a identidade dos que livremente se sentem portugueses. Por mim, prefiro viver com quem quer viver comigo e não com quem a isso está obrigado A verdadeira e saudável identidade não existe no sangue nem se adquire onde se nasce: constrói-se, em relação com os outros através da adesão a uma comunidade. É uma identidade que não nos é dada nem oferecida mas que conquistamos. Só essa identidade é crítica e reflexiva e, como tal, positiva. Uma identidade que se abre e se define pela inclusividade e não pela exclusividade. Com os novos portugueses sem dúvida que mudará também a nossa identidade mas uma identidade estática não é factor de coesão mas sim uma prisão. Resistir a esta forma de identidade aberta é igualmente ignorar o futuro. Para sobreviver a Europa, e Portugal em particular, necessitarão no futuro de milhões de imigrantes: eu prefiro que eles venham a ser portugueses. O que importa apenas é garantir que a sua identidade seja voluntária e genuína. Quem tem dúvidas disso depois de ver Pepe correr e sorrir daquela forma? Obrigado Pepe por quereres ser português."
domingo, abril 13, 2008
Ler os outros - III
IMORAL E IMPOLÍTICO
Por BOS
"Já ando para escrever sobre o Acordo Ortográfico há algum tempo. Os leitores perdoam-me a falta de oportunidade. Parece-me uma das batalhas que importa travar e vencer na blogosfera. Antes de mais, esclareço a minha posição: sou contra.
A questão das consoantes mudas, só por si, dá vários tratados. A eliminação do hífen, outros tantos. O acordo estabelece que não se usará hífen em palavras com prefixo terminado em vogal e o segundo elemento começado por 'r' ou 's'. Acaba assim com os anti-semitas. De ora em diante, só antissemitas. Nelson Rodrigues, o extraordinário dramaturgo e polemista brasileiro, recorria amiúde nas suas crónicas à expressão "um sol de rachar catedrais". Pois aquele «SS» central em antissemitas é de rachar sinagogas.
O assunto merece mais do que um postal, mas para já deixo aqui as duas principais razões do meu protesto:
1. O Estado não tem nada que se meter onde não é chamado. Que vá peneirar os tiques totalitários para outros domínios. Um idioma não se impõe por decreto. Fernando Pessoa, por exemplo, marimbou-se de alto para a Reforma Ortográfica de 1911 e continuou a grafar como havia aprendido. Sobre a reforma republicana, escreveu: «Além do impatriotismo, foi o acto imoral e impolítico».
O Inglês é a língua franca do mundo inteiro, mas nenhum Parlamento pretendeu até hoje "unir" e "harmonizar" as ortografias do Reino Unido e dos Estados Unidos, que são diferentes.
2. A diferença entre o Português de Portugal e o do Brasil é menos ortográfica do que lexical. Para além das naturais variações de pronúncia, prosódia e morfossintaxe. Há autocarro, em Portugal, e ônibus, no Brasil; comboio e trem; eléctrico e bonde; boleia e carona; talho e açougue; pequeno-almoço e café da manhã; casa de banho e banheiro; relvado e gramado; guarda-redes e goleiro; matraquilhos e pimbolim; telemóvel e celular; e um larguíssimo etc."
Por BOS
"Já ando para escrever sobre o Acordo Ortográfico há algum tempo. Os leitores perdoam-me a falta de oportunidade. Parece-me uma das batalhas que importa travar e vencer na blogosfera. Antes de mais, esclareço a minha posição: sou contra.
A questão das consoantes mudas, só por si, dá vários tratados. A eliminação do hífen, outros tantos. O acordo estabelece que não se usará hífen em palavras com prefixo terminado em vogal e o segundo elemento começado por 'r' ou 's'. Acaba assim com os anti-semitas. De ora em diante, só antissemitas. Nelson Rodrigues, o extraordinário dramaturgo e polemista brasileiro, recorria amiúde nas suas crónicas à expressão "um sol de rachar catedrais". Pois aquele «SS» central em antissemitas é de rachar sinagogas.
O assunto merece mais do que um postal, mas para já deixo aqui as duas principais razões do meu protesto:
1. O Estado não tem nada que se meter onde não é chamado. Que vá peneirar os tiques totalitários para outros domínios. Um idioma não se impõe por decreto. Fernando Pessoa, por exemplo, marimbou-se de alto para a Reforma Ortográfica de 1911 e continuou a grafar como havia aprendido. Sobre a reforma republicana, escreveu: «Além do impatriotismo, foi o acto imoral e impolítico».
O Inglês é a língua franca do mundo inteiro, mas nenhum Parlamento pretendeu até hoje "unir" e "harmonizar" as ortografias do Reino Unido e dos Estados Unidos, que são diferentes.
2. A diferença entre o Português de Portugal e o do Brasil é menos ortográfica do que lexical. Para além das naturais variações de pronúncia, prosódia e morfossintaxe. Há autocarro, em Portugal, e ônibus, no Brasil; comboio e trem; eléctrico e bonde; boleia e carona; talho e açougue; pequeno-almoço e café da manhã; casa de banho e banheiro; relvado e gramado; guarda-redes e goleiro; matraquilhos e pimbolim; telemóvel e celular; e um larguíssimo etc."
segunda-feira, dezembro 31, 2007
Ler os outros - II
O tempo que temos
Por Pedro Rolo Duarte
"É talvez a frase mais irritante dos tempos modernos: «não tenho tempo para nada». Ouvimo-la diariamente, até à exaustão, parece um eco absurdo que se passeia pelos nossos dias como uma daquelas moscas moles de Verão. Toda a gente diz que não tem tempo, toda a gente se desculpa com a falta de tempo, o tempo escasseia mais do que a vida. O tempo é uma merda, em resumo. Ou a falta dele. Ou o jeito que nos dá a desculpa do tempo. São três da manhã e estou a começar agora a escrever. Atrasado. Sem tempo. «Não tenho tempo para nada». Não tenho? Quem disse que não tenho? Por que estou agora a começar a escrever e não, como era suposto, a acabar de escrever? Porque me faltou o tempo? Observo o dia que passou, o tempo «que gastei». Trabalhei, comprei um candeeiro, almocei uma sanduíche, bebi um chá e conversei com uma amiga ao fim do dia, tive um jantar em casa da Adriana, fui ver o pátio forrado a azulejos da Maria João e voltei para casa. Não tive tempo para nada? Não, tive tempo para o que quis, organizei e distribui o tempo em função dos meus interesses, da minha vontade e, vá lá, no limite, de um inesperado final de dia. Houve um momento inesperado, é verdade, mas eu aceitei-o. Não foi falta de tempo – foi outro tempo, foi o meu modo de organizar o tempo. Ninguém tem nada com isso – mas eu não tenho o direito de dizer que me faltou o tempo. O tempo é a desculpa dos tempos modernos – falta-nos tempo para os amigos, para a família, para aquele projecto que ficou na gaveta, para organizar as fotografias, «para nós», para ler, para escrever, para telefonar, para comer, para sair, para entrar, para ver, para estudar. O que nos falta de tempo sobra-nos onde? Em quê? É absurda a ideia, é irritante a desculpa. Nós temos, como na novela, «todo o tempo do mundo» - o problema é pequeno e simples: gastamo-lo com o que mais queremos ou precisamos, e naturalmente que não nos sobra mais para aquilo que efectivamente dispensamos mas não temos coragem para assumir que deixamos de lado. Incomoda-me a eterna escusa do tempo por ser injusta para com o bem mais precioso da nossa vida. O tempo não para de passar, nem se cansa de andar à nossa volta, e é um conceito nobre e uma palavra bela. O tempo inspira os poetas, os escritores, sobre ele há ensaios e imagens, o tempo domina e é dominado, tem o poder de avançar sem pedir licença e jamais recuar. O tempo não volta para trás, como a canção pedia. Como se pode usar um bem desta natureza para desculpar as opções que tomamos? Se são três da manhã e me falta tempo para escrever, isso deve-se ao tempo que decidi tomar para uma palavra, um beijo, um abraço, ou apenas um olhar pausado numa montra. Eu não «o perdi» - eu ganho-o no momento em que corro ao seu lado, que o uso, que me aproveito dele para o meu prazer, a minha felicidade, ou apenas o corrente uso diário. Um «compasso de espera» pode ser a solução, um olhar prolongado pode ser o futuro, um abraço longo pode ser a saída. O tempo é extraordinário – isto quer dizer que, por não ser ordinário, não deve ser usado como argumento para as nossas faltas, ausências, falhas. Passa das quatro da manhã e eu não dei o meu tempo por perdido. Ganhei o meu tempo usando-o como bem entendi, provavelmente melhor do que saberia julgar – o tempo o dirá. Escrevi 33 vezes a palavra tempo em menos de uma página de jornal. A relevância que ele tem é o número de vezes que perdi tempo (34...) a escrever o seu nome. É um nome belo, intenso e vivo. Não quero perder mais tempo (35...) com ele, mas gostava que soubessem que não me importo de o perder: é o melhor que tenho para dar. Numa palavra, num sorriso, num beijo. Ou numa crónica de jornal. Há tempo para tudo, até para o perdermos a pensar no que faríamos com ele se o tivéssemos de sobra."
Por Pedro Rolo Duarte
"É talvez a frase mais irritante dos tempos modernos: «não tenho tempo para nada». Ouvimo-la diariamente, até à exaustão, parece um eco absurdo que se passeia pelos nossos dias como uma daquelas moscas moles de Verão. Toda a gente diz que não tem tempo, toda a gente se desculpa com a falta de tempo, o tempo escasseia mais do que a vida. O tempo é uma merda, em resumo. Ou a falta dele. Ou o jeito que nos dá a desculpa do tempo.
quinta-feira, novembro 15, 2007
quarta-feira, novembro 07, 2007
No Rádio - V
Bruce Springsteen - Radio Nowhere
I was tryin' to find my way home
But all I heard was a drone
Bouncing off a satellite
Crushin' the last lone American night
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
I was spinnin' 'round a dead dial
Just another lost number in a file
Dancin' down a dark hole
Just searchin' for a world with some soul
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
Is there anybody alive out there?
I just want to hear some rhythm
I just want to hear some rhythm
I just want to hear some rhythm
I just want to hear some rhythm
I want a thousand guitars
I want pounding drums
I want a million different voices speaking in tongues
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
Is there anybody alive out there?
[Instrumental]
I was driving through the misty rain
Yeah searchin' for a mystery train
Boppin' through the wild blue
Tryin' to make a connection with you
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
Is there anybody alive out there?
I just want to feel some rhythm
I just want to feel some rhythm
I just want to feel your rhythm
I just want to feel your rhythm
I just want to feel your rhythm
I just want to feel your rhythm
I just want to feel your rhythm
I just want to feel your rhythm
I was tryin' to find my way home
But all I heard was a drone
Bouncing off a satellite
Crushin' the last lone American night
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
I was spinnin' 'round a dead dial
Just another lost number in a file
Dancin' down a dark hole
Just searchin' for a world with some soul
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
Is there anybody alive out there?
I just want to hear some rhythm
I just want to hear some rhythm
I just want to hear some rhythm
I just want to hear some rhythm
I want a thousand guitars
I want pounding drums
I want a million different voices speaking in tongues
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
Is there anybody alive out there?
[Instrumental]
I was driving through the misty rain
Yeah searchin' for a mystery train
Boppin' through the wild blue
Tryin' to make a connection with you
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
Is there anybody alive out there?
I just want to feel some rhythm
I just want to feel some rhythm
I just want to feel your rhythm
I just want to feel your rhythm
I just want to feel your rhythm
I just want to feel your rhythm
I just want to feel your rhythm
I just want to feel your rhythm
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